Carol Comunica

Policial08 de setembro de 20264 min de leitura

O crime que Maringá nunca esqueceu: a história de Clodimar Pedrosa Lô

Acusado de um furto que não cometeu, Clodimar Pedrosa Lô entrou em uma delegacia de Maringá em novembro de 1967. Nunca mais saiu vivo. A morte provocou revolta popular, expôs abusos policiais e deixou marcas que atravessam gerações.

Foto: Maringá Histórica
Foto: Maringá Histórica

Clodimar Pedrosa Lô tinha apenas 15 anos quando sua história se tornou uma das páginas mais dolorosas de Maringá. Nascido em 23 de janeiro de 1952, ele havia deixado o Ceará para morar com familiares, estudar e trabalhar no Paraná. Na cidade, conseguiu emprego como ajudante geral e carregador de malas no antigo Palace Hotel, na Avenida Brasil.

Era 23 de novembro de 1967, período em que o Brasil vivia sob a ditadura militar. O caso de Clodimar não começou por uma acusação política: começou pelo desaparecimento de dinheiro de um hóspede. Mas o que aconteceu depois se tornou um retrato brutal da violência praticada por agentes públicos naquele período.

Uma acusação sem provas

Um hóspede frequente do Palace Hotel percebeu que dinheiro havia desaparecido de seus pertences. Registros históricos identificam o homem como Antônio Forte e apontam que a quantia seria de Cr$N 340. Clodimar acabou acusado porque trabalhava no hotel e tinha acesso aos quartos. Não havia prova concreta de que ele tivesse cometido o furto.

O gerente do hotel, Attílio Farris, chamou a polícia. Clodimar negou saber onde estava o dinheiro, mas foi levado para a então 13ª Subdivisão Policial de Maringá, localizada na Avenida Paraná, próximo à Rua Guaíra.

Foi ali que começou a tortura.

A “Sala dos Suplícios”

Dentro da delegacia existia um ambiente que ficaria conhecido na memória da cidade como “Sala dos Suplícios”.

Registros históricos apontam os soldados Manoel Gerson Maia e Beneval Merêncio Bezerra como responsáveis pelas agressões. Durante horas, Clodimar foi submetido a espancamentos e métodos de tortura enquanto era pressionado a confessar o furto. Mesmo diante da violência, continuou negando o crime.

Na madrugada de 24 de novembro de 1967, o adolescente morreu.

Maringá se revolta

A morte de um garoto de 15 anos dentro de uma delegacia provocou uma enorme comoção popular e colocou a atuação da polícia local sob questionamento. O governo do Paraná enviou autoridades a Maringá e o episódio desencadeou investigações sobre outros abusos cometidos pelas forças policiais.

O coronel Haroldo Cordeiro, responsável pela estrutura policial local, deixou o comando após o episódio. Os dois soldados apontados como autores das torturas fugiram, foram posteriormente localizados e presos no Maranhão e, segundo o livro Sala dos Suplícios, acabaram libertados posteriormente por habeas corpus.

O caso ganhou repercussão para além de Maringá e passou a simbolizar também o debate sobre violência institucional, tortura e abuso de poder.

Três anos depois, outra morte

O pai de Clodimar, Sebastião Pedrosa Lô, vivia em Parambu, no Ceará. Depois da morte do filho, foi para Maringá em busca de respostas.

Em 15 de outubro de 1970, quase três anos depois, Sebastião encontrou Attílio Farris, o gerente do Palace Hotel que havia chamado a polícia naquela noite de 1967.

Sebastião matou Farris a tiros na Avenida Brasil e depois se entregou.

O julgamento voltou a mobilizar a cidade. Sebastião enfrentou três júris populares e acabou absolvido, obtendo liberdade em 1972.

O episódio transformou o Caso Clodimar em uma história ainda mais complexa: uma sequência de violência que atingiu duas famílias e deixou uma cidade inteira discutindo justiça, responsabilidade do Estado e vingança.

De vítima a “santo popular”

Com o passar das décadas, aconteceu algo inesperado.

O túmulo de Clodimar, no Cemitério Municipal de Maringá, passou a receber flores, velas, orações e placas de agradecimento de pessoas que afirmam ter alcançado graças depois de pedir sua intercessão.

Clodimar tornou-se aquilo que popularmente se chama de “santo de cemitério”, embora nunca tenha sido reconhecido como santo pela Igreja Católica.

A história que virou livro e cinema

Décadas depois, documentos, fotografias, reportagens e testemunhos ajudaram a reconstruir o episódio.

O pesquisador Miguel Fernando Perez Silva publicou Sala dos Suplícios: o dossiê do caso Clodimar Pedrosa Lô. A obra chegou à terceira edição em 2022.

Em 2011, a história chegou também aos cinemas com o documentário “23.11.1967: Documentos do Caso Clodimar Pedrosa Lô”, dirigido por Eliton Oliveira. O longa reuniu depoimentos de 12 pessoas ligadas ou testemunhas do episódio.

E a busca por reparação continua

Mais de meio século depois, a família ainda tenta obter uma responsabilização do Estado.

Em 2023, familiares voltaram a buscar judicialmente uma reparação moral pela morte, argumentando que Clodimar foi torturado por agentes públicos, em serviço e dentro de instalações do próprio Estado. A reportagem da CBN Maringá, atualizada em 2025, ainda registrava essa tentativa.

A memória de Clodimar também chegou ao Legislativo municipal: em 2025, foi apresentado na Câmara de Maringá um projeto para reconhecê-lo como Patrono dos Jovens Maringaenses e instituir 24 de novembro como Dia Municipal de Memória a Clodimar Pedrosa Lô. Trata-se de um projeto de lei, e não de uma homenagem que possa ser tratada como definitivamente aprovada sem confirmação posterior.

Quase seis décadas depois, o Caso Clodimar permanece vivo porque ultrapassa a crônica policial. É a história de um adolescente pobre e migrante, acusado sem provas, entregue a quem deveria protegê-lo e morto dentro de uma instituição do Estado.

Maringá cresceu, a delegacia mudou, o Palace Hotel desapareceu. Mas o nome de Clodimar continuou.


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Carol Comunica

Maringá, 08 de setembro de 2026 · 4 min de leitura

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